DANIEL CANOGAR
Teratologias, 2001
Daniel Canogar (Madrid, 1964) é dos artistas internacionais de maior relevo no âmbito das artes multimédia e um pioneiro no uso das novas linguagens digitais que há mais de 25 anos dão corpo a um extenso e contínuo percurso. Há no trabalho de Daniel Canogar uma riqueza de diversidade técnica e temática, contudo apresenta-se como transversal a questão da mudança social provocada pelo desenvolvimento tecnológico do digital e o consequente impacto no mundo diário, na relação com os outros e com nós mesmos. A sua abordagem artística traduz uma reflexão de dualidade crítica que explora a dicotomia entre Tecnofilia (adesão imediata e acrítica às inovações tecnológicas) e a Tecnofobia (medo e rejeição das novas tecnologias), e a mudança de perspectivas sobre o entendimento do ser humano no planeta Terra.
Teratologias é uma instalação de arte em que o visitante é envolvido por um conjunto de 24 imagens fixas, projetadas por uma teia de cabos óticos suspensos. As imagens revelam elementos figurativos enigmáticos, com formas e cromatismo fascinantes que, num primeiro momento, associamos à natureza, sem, contudo, conseguirmos facilmente discernir a sua origem real.
A origem etimológica do termo vem do grego e relaciona-se com o estudo e relato de monstruosidades. Teratologia constitui um campo da ciência médica que se dedica ao estudo das influências ambientais na alteração do normal desenvolvimento pré-natal. Entre vários agentes teratogénicos encontram-se vírus, bactérias, fungos, vermes, parasitas responsáveis por diversas anomalias congénitas.
Reivindicando a ideia do artista como um investigador, Daniel Canogar estabelece uma conexão entre arte e ciência, apropriando-se de imagens reais desses agentes microscópicos que projeta individualmente, conferindo-lhes uma dimensão fotográfica de forte plasticidade. Imagens que se espalham pelas paredes, atraindo e envolvendo o público numa experiência imersiva.
Se, por um lado, o visitante é metaforicamente contaminado ao
receber a projeção virtual desses organismos biológicos, por outro, ele
torna-se parte integrante do conjunto, sendo mais uma imagem/organismo agente.
O artista, ao retirar da obscuridade e trazer à luz estas imagens, projeta
também, de forma provocadora, a reflexão crítica sobre uma outra questão
premente do mundo actual: não é o ser humano o principal vírus do planeta?
Adelaide Ginga
Curadora